A economia nas nossas mãos – Epílogo à Rede de Economia Solidária do Porto

Publicado originalmente no Jornal Mapa #19 (Fev-Abr 2018)

A acção desenrola-se à volta de uma mesa. Num arranjo sobre uma toalha florida, frascos de iogurte caseiro estão dispostos lado-a-lado com as famosas compotas da Vó Guida. Por gentileza, alguém deixou um molho de malaguetas sino-de-natal para quem quiser levar. Outro trouxe uma amostra de conserva de cogumelos pleurotus em azeite, e convida as pessoas a provarem e opinarem sobre a nova receita. Duas jovens hortaleiras e um cão acabam de chegar com cabazes de hortícolas e aromáticas fresquinhas. As marmitas estão quase prontas: só esperam ser embaladas pela mesma pessoa que espalhou jarros com mudas de alface e couve-flor pela sala. Cheira a especiarias e a pão no forno. O tom de convivialidade junta diferentes idades, sotaques, ofícios, partilhas, e encontra uma caixa-de-ressonância neste lugar.

Dia de distribuição da AMEP – Novembro 2015

Ao longo de mais de um ano, os encontros semanais de “prossumidores” da Associação para a Manutenção da Economia de Proximidade (AMEP) foram uma das faces mais visíveis da ECOSOL no Porto – a rede de economia solidária que tinha ganas de criar uma alternativa concreta à economia vigente. A AMEP era um grupo autónomo de produção, consumo e distribuição de alimentos e outros bens essenciais, que utilizava a moeda social ECOSOL como ferramenta para facilitar as trocas. Ao contrário de outros grupos de consumo, na AMEP todos os consumidores eram convidados a serem também elementos produtivos para um mote comum: a rede de economia solidária do Porto.
Seria esse o maior desafio, uma espécie de provocação ao sujeito passivo: o que pode cada um de nós fazer de realmente útil para a comunidade?

ECOSOL: origem e primeiros passos

A ECOSOL nasceu como colectivo informal em finais de 2013 “para reflectir e praticar a economia solidária”. A vontade surgiu no seguimento das Feiras de Trocas das Virtudes, onde se promovia as trocas directas entre feirantes e visitantes. A partir dessa experiência, sublimaram-se as óbvias as limitações do modelo: o “toma-lá-dá-cá” da troca directa deixava a economia refém da oferta e procura coincidente entre somente duas pessoas. Era preciso alargar as possibilidades de troca através de relações multi-recíprocas.

ECOSOL na zine AMEP

Surge então a ECOSOL (cuja auto-definição sempre oscilou entre rede e movimento). Inicia-se um período de estudo sobre as “outras economias”, com a projecção de documentários e a organização de debates em diversos espaços associativos do Porto. Enquanto se preparavam as bases para o lançamento de uma moeda local, aprendia-se sobre feiras de trocas, moedas locais, economias alternativas, cooperativismo, consumo, transição, tecnologias, redes globais, e mais…. Pelo caminho, iam-se fortalecendo laços entre pessoas que (mesmo que nem sempre concordassem em tudo) tinham algo em comum que as ligava: a vontade de ver florescer a economia solidária no Porto.

Após meses de incubação, em meados de 2014 a moeda ECOSOL – exclusivamente virtual – entrou em circulação. Recorrendo à plataforma Cyclos, que permite gerir comunidades de trocas de forma gratuita, abriu-se um “mercado” alternativo online. Em dois anos, a ECOSOL passou de cerca de 20 membros para mais de 300, trazendo consigo centenas de produtos e serviços à rede – desde roupa, alimentos, produtos de higiene e instrumentos musicais, a aulas de dança, de línguas, baby-sitting, massagens, carpintaria, costura, transportes, etc.

Feira ECOSOL. Foto: Irene Serafino

Processo solidário em curso

“A economia solidária não é tanto um modelo de organização económica, mas sim um processo de organização da economia; não se trata de uma visão, mas de um processo activo para criar a visão em colectivo.” (Miller, 2009)

Mais do que a economia em si que a ECOSOL tentava gerar, o processo de auto-organização para fazê-la acontecer era talvez o lado mais emancipatório que a rede tinha.

As assembleias eram o momento de convergência e reflexão sobre a evolução da economia solidária do Porto. Fazia-se pontos de situação dos vários grupos de trabalho, discutia-se novas propostas e definia-se metas para as feiras e semanas vindouras.

Assembleia ECOSOL na Quinta do Mitra

Os grupos de trabalho funcionavam de forma autónoma e serviam para dar andamento aos expedientes mais rotineiros da ECOSOL, como a comunicação, as questões “administrativas” (da plataforma online e de tesouraria), e o acolhimento de novos membros.

Havia também o grupo da economia – responsável por reportar trimestralmente sobre as finanças da rede e o balanço de dívidas/acumulação em “ecos”; o grupo internacional – responsável por estabelecer pontes com iniciativas irmãs além-fronteiras (como a Cooperativa Integral Catalã); e o grupo de consumo cultural – dedicado a trazer para a rede livros, filmes e música do circuito independente; para além da AMEP – o grupo que seguia com a economia de proximidade em riste, dando vida, corpo e (literalmente) alimento ao movimento.

Não destronou o sistema capitalista, mas sempre deu para poupar uns trocos. E tatuou uma experiência de autonomia que – a quem a viveu – ninguém pode apagar.

O silêncio da dissolução

Foi de forma cerce e silenciosa que a rede de economia solidária do Porto deixou de pôr em prática a utopia a que se propunha.

A oitava e última assembleia tomou lugar no dia 22 de Novembro de 2015, e foi marcada pela presença maioritária de novos elementos que tinham chegado através de uma sessão de “Dragon Dreaming”. Dinamizada umas semanas antes, a metodologia participativa para a “co-criação” de processos colectivos tinha o objectivo de fazer um “balanço e relançamento do projecto com nova Energia, foco, motivação e espírito de grupo”. De algum modo, as expectativas elevadas que dali saíram não só não tiveram respaldo, como potencialmente terão tido um efeito inibidor na concretização do passo seguinte, que seria “[transformar os sonhos] em acções concretas, grupos de trabalho com objectivos, metas, prazos e responsabilidades”. À oitava assembleia ECOSOL seguiu-se um ano de funcionamento não-assembleário, com encontros pontuais e parca participação em eventos.

Anúncio da sessão Dragon Dreaming

A ausência de práticas serviu de testamento para o fim da rede de economia solidária do Porto, confirmando a máxima de Linebaugh: “there is no commons without commoning”.

A AMEP cessou actividades em Março de 2016, fruto da indisponibilidade e/ou saturação dos organizadores voluntários, que nunca conseguiram de facto implementar o sonho da auto-gestão, ou a responsabilidade rotativa da coordenação do grupo de prossumidores.

Vários outros factores terão contribuído para o movimento esmorecer, desde a emigração de membros particularmente proactivos – el@s própri@s vítimas de vidas precárias, sem perspectivas de futuro e propens@s ao estabelecimento de relações temporárias – à falta de iniciativa daqueles que ficaram – sempre à espera que um “facilitador” ou “gestor” surgisse para vir tomar as rédeas da situação – ou até (não menos importantes), as habituais deficiências de comunicação em colectivos desta natureza: os emails inflamados, as assembleias sofridas, o domínio pela palavra, o controlo da informação. A resiliência falhou.

Ou talvez – só talvez – alguém simplesmente se tenha esquecido de convocar a próxima assembleia?


UTOPIAS CONCRETAS
// Arquipélago Comum
*«Somos miles de islas, hagamos archipiélagos.»
La Casa Invisible, Málaga

Das brandas serranas às hortas urbanas, são cada vez mais os palcos do quotidiano onde há pessoas que se juntam para tentar criar soluções práticas para o seu sustento, fora da lógica mercantilista e da competição. São iniciativas com a “função performativa” [1] de ensaiar o comum – esse espaço de possibilidades que se abre quando existe uma comunidade, um ou mais recursos partilhados, e uma forma de lidar com a sua governação [2].
Esta rubrica surge na tentativa de mapear evidências dessas “outras economias” [3] em Portugal, ilustrando casos concretos de iniciativas de autonomia e modos de vida de base comunitária que (muitas vezes de forma dispersa, modesta, precária, e quase invisível) estão a semear práticas emancipatórias e solidárias, preocupadas com o bem-comum.
Pretende também contribuir para a desambiguação de termos, numa altura em que se multiplicam os qualitativos da economia – das armadilhas neoliberais da economia da partilha, ao institucionalismo patriarcal da economia social – e que podem causar confusão. Discerniremos pelas utopias concretas, pelos processos de emancipação que questionam as estruturas de poder e de decisão.


[1] Serge Latouche, o teórico do decrescimento, numa entrevista à revista Avvenire, em 2012 (“Abbondanza frugale: ricetta anticrisi”) http://www.avvenire.it/Cultura/Pagine/abbondanza-frugale-.aspx
[2] Ostrom, E. (1990). Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action (Political Economy of Institutions and Decisions). Cambridge: Cambridge University Press.
[3] Castells, M., Banat-Weiser, S., Hlebik, S., Kallis, G., Pink, S., Seale, K., … Varvarousis, A. (2017). Another economy is possible. Cambridge: John Wiley and Sons.

Playing cooperation

The rainy day that took over the grey historic center of Porto, in the other side of the window, set the perfect stage for a cozy afternoon of Commonspoly at Rosa Imunda.

Eleven people showed up to learn-by-playing this board game where no one wins or loses individually – the main goal is to cooperate and “save the commons” by avoiding the privatization of goods and services.

The session started with a brief introduction about Commonspoly, how and when it was created, and why it was proposed as a citizen lab in the scope of futureplaces.

The choice of the venue was not a coincidence: Rosa Imunda is an autonomous community space and cultural association located at the heart of the city, which is literally surrounded by the pressure of dispossession by economic interests – a contemporary phenomenon that can be compared to the widespread “enclosure of the commons” that took place in England centuries ago, when lands of communal use became property of only a few.

Before starting, all players were warned: this game is a work-in-progress and the rules are sometimes ill-defined – part of the challenge is precisely to find ways to surmount the deadlock situations, and to contribute to the improvement of its playability, in collective.

As the level of complexity of the game with all its features is not compatible with a two-hour session for beginners, we played a simplified version, without police.

Each table had a “copianço” with a summary of the main variables of Commonspoly: types of resources (urban/rural, environmental, knowledge or body related), their status (private, public or commons), and the “currency” of the game (welfare and legitimacy).

And so the game began, with two teams defining each their profiles and strategies to “commonize” as many resources they could in the short time they had, while exercising collective decision-making and practicing cooperation instead of competition.

It is about more than simply playing the dice.

Commonspoly serves as a device to introduce the commons theories into groups in a pedagogical and ludic way. One of the worst game boxes one can fall on, for instance, is “The Tragedy of the Commons”, named after the influential essay of Garrett Hardin (1968) that dismissed the commons as a failed system of governance and resource management, and which was later rebutted by Elinor Ostrom, the first woman awarded with the Nobel Prize in Economic Sciences.

Throughout the game, players are confronted with some of the pains of our current socio-political system – such as privileges of class, gender, citizenship, the impacts of climate change and financial crises, the oligarchy of intellectual property, OGMs and agro-industry – but also with “some powerful community-based tools to struggle against the apocalypse”, as the website of the game puts it to introduce the constructive solutions proposed by the commons, such as co-ops, hacklabs, urban gardens, etc.

Being a free licensed board game whose “philosophy is part of the free/open culture movement”, it was also our role as players to contribute to the improvement of the game itself. So, in the end of the session – after taking over the Agora with an uprising collective action to turn all resources into commons! – we did a final round of comments and impressions about our short experience with Commonspoly.

Some of the feedback that was later shared with the open source community, concerns unclear rules, ecological optimization of the materials, and small changes in the graphic design that could make the board game more intuitive.

Photos: Luis Barbosa / futureplaces

Mais pimento, menos cimento!

Huerta La Vanguardia

«y en la tierra se abren surcos para sembrar algo nuevo

Silvia Tomas, Todo se mueve / Desaprendiendo lo aprendido

Visita a uma “horta indignada” de Barcelona

Por entre uma frincha nos tapumes de obra que encerram o quarteirão entre Llull e Lllacuna, no bairro de Poblenou em Barcelona, confirmamos os versos da canção da Silvia Tomas – “na terra abrem-se sulcos para semear algo novo”.

Lá está ela, La Vanguardia, a nona horta comunitária a ocupar um terreno abandonado só naquele bairro desde 2011 – ano do 15M, das acampadas e dos indignados que deram depois lugar à descentralização das assembleias para os bairros da cidade.

Enquanto espero pelo comparte deste baldio urbano que me vai mostrar a horta – e sob o sol abrasador de uma tarde de fim de junho – vou sondando o que vejo em redor.

Do lado de fora, virado para o passeio, um painel informativo desenhado à mão resume para quem passa o que é esta horta comunitária: um “colectivo de vizinhos e vizinhas”, que ocupou e recuperou um espaço abandonado, transformando-o num “ponto de encontro para o bairro”. “Um espaço de acesso livre e autogestionado” onde se desenvolvem “actividades sociais e culturais”. As decisões são tomadas em assembleia, e todos e todas são bem-vindos, desde que tenham “ganas” de participar e respeitem o espaço e as pessoas, já que aqui “não se admitem atitudes machistas, xenófobas nem egoístas”.

Ponto de informação no exterior da horta.
Ponto de informação no exterior da horta.

Do lado de dentro, um placard enfrenta a porta da rua com outra máxima: “mais pimento, menos cimento”.

Um terceiro painel, maior, afixado num edifício devoluto do outro lado da rua, não parece estar ali por coincidência: mostra uma cidade em colapso acompanhada pela mensagem “Os hotéis afundam o bairro. PLANTEMOS!”

Mural num edifício do outro lado da rua: "Os hoteis afundam o bairro. Plantemos!"
Mural num edifício do outro lado da rua: “Os hoteis afundam o bairro. Plantemos!”

“Distrito da inovação” vs. Regeneração do bairro

Desde o início dos anos 90 que o antigo bairro operário de Poblenou começou a sofrer uma profunda transformação urbanística. A demolição das antigas fábricas naquela área do distrito industrial de Sant Martí – conhecido como a Manchester da Catalunha no século XIX – deixou quarteirões inteiros de terrenos vazios destinados à edificação futura (“solares”, em catalão). O plano de renovação urbana ganhou força no ano 2000, com a aprovação do mega-projecto de “regeneração urbana” Arroba 22 que promete uma “nova cidade” – literalmente Poblenou – transformada em “distrito da inovação”.

O projecto de “renovação urbana, renovação económica e renovação social” pretende construir uma área de 4 milhões de metros quadrados (em andares), e atrair empresas internacionais e “pessoas de negócios” nos ramos da tecnologia, dos media, da energia, do design e das biomédicas. Fecham-se negócios de milhões e o cenário em redor vai-se transformando num misto de inox, vidro e condomínios fechados que convivem com armazéns antigos agora dedicados às “indústrias criativas”, e os templos do consumo de sempre, sobretudo na grande avenida Diagonal, que corta a cidade a meio, e nas Ramblas de Poblenou.

Duplo arco-íris sobre Poble Nou.
Duplo arco-íris sobre Poble Nou.

Encontro o Theo Gozman num cruzamento que tem em cada esquina um símbolo desta transformação – atrás de nós está um quarteirão demolido (metade horta, metade em obras), à nossa frente um edifício em ruína, e dos lados um prédio moderno e uma igreja.

O Theo faz a contextualização:

«Aqui vivia normalmente gente que vivia do mar – pescadores, ou gente que trabalhava nas fábricas. Quando as fábricas fecharam (…) muitas das pequenas fábricas tiveram de fechar, pequenos produtores (que havia muitos!) tiveram de fechar, transportadoras (isto estava cheio de transportadoras) que tiveram de fechar, e muitos edifícios que ficaram vazios, em ruínas… ‘solares’ por todo o lado. E muitos dos edifícios que foram demolindo deram lugar a muitos espaços vazios e onde não se está a construir nem a fazer nada. E então o bairro, para resgatar um pouco a vida do bairro, a integridade do bairro e o espírito do bairro, foi recuperando estes lugares e reconvertendo-os em hortas urbanas

La Vanguardia

Ocupada em meados de 2016, a horta adoptou o nome do anterior proprietário do terreno, o jornal “La Vanguardia”, empresa (em tempos pública) que se viu obrigada a ceder o terreno à Câmara Municipal de Barcelona devido a uma lei que andava esquecida na gaveta. O actual governo de Ada Colau (à frente da câmara desde junho de 2015) pôs em prática uma lei já existente que obriga os proprietários a destinar 10% ou 15% da área total ao usufruto público, por cada xis metros quadrados de terreno. Segundo o Theo,

«Se és um opulento milionário e tens hotéis, terrenos e (…) um património imobiliário enorme, em Barcelona tens a obrigação de dedicar uma parte ao uso público»

O facto de se tratar de um lote público, considerado espaço verde graças à sua requalificação como horta urbana, dá alguma segurança aos hortaleiros em relação à permanência da ocupação. Não obstante a esperança depositada na edilidade e as boas relações com a actual administração local, quando La Vanguardia foi interpelada com a proposta de integração na “rede de hortas urbanas” promovida pela Área do Meio Ambiente da Câmara de Barcelona desde o final dos anos 90, o colectivo de vizinhos decidiu em assembleia que isso não interessava, preferindo manter a horta como projecto autónomo de gestão comunitária.

Num artigo publicado em 2014 no website arquitectura politica sobre “as redes de hortas urbanas (no plural)”, o balanço da iniciativa camarária é visto como positivo, e “tanto a demanda como a oferta de parcelas nestas hortas tem crescido nos últimos anos”. O autor, Marc Fernandez, acredita no entanto que os seus objectivos “são muito pouco ambiciosos tendo em conta o potencial que uma horta tem a nível urbano, a nível ambiental, mas sobretudo a nível social”, e recorda que “existem outros modelos à margem das instituições que oferecem experiências mais enriquecedoras”.

Ver mapa com a rede de hortas municipais e comunitárias de Barcelona.
Ver mapa com a rede de hortas municipais e comunitárias de Barcelona.

São as hortas urbanas comunitárias, como La Vanguardia em Poblenou, onde mais do que cultivar alimentos, cultiva-se a auto-gestão e a organização assembleária.

«Sábados e domingos são dias de trabalho comunitário. A porta está aberta quase todo o dia, as pessoas entram, aproximam-se, perguntam, e fazemos uma sobremesa, muito bonito e familiar tudo. (…) o dia que teve mais gente foi o dia da festa dos mortos

Fora dos dias de trabalho comunitário e de festa, a porta da horta mantém-se trancada, por questões de segurança e “até que [haja] gente suficiente a tomar conta [do espaço] e a fazer o que é preciso”. De forma a conseguir cobrir as diversas necessidades, os hortelãos e as hortelãs vão-se revezando nas tarefas de manutenção. “Por agora, por causa da época do calor, é a rega”. Estão a regar todos os dias, mas ainda assim, perdem-se colheitas – segundo o Theo, um dos contras de não haver talhões individuais (tudo é de todos), o que em alturas do ano como esta, em que toda a gente está de férias, quer dizer que a horta fica um pouco descuidada e há alimento que acaba por espigar, ficando por aproveitar.

«A nossa ideia não é a auto-sustentabilidade…porque o espaço e a nossa infraestrutura não permitem que vivamos desta horta. A ideia é mais combater um pouco este ataque bestial do capitalismo neoliberal através da especulação imobiliária e criar um lugar de comunhão, um núcleo onde podemos conviver, partilhar e desfrutar como vizinhos, porque não tínhamos esse espaço.»

Foram então ocupando o espaço da Horta La Vanguardia com camas de cultivo, vermicompostores e depósitos de água, sementeiras e viveiros, uma cozinha comunitária, uma galeria improvisada ao ar livre com peças feitas a partir de materiais reciclados, um palco para teatro e concertos, uma área para as crianças brincarem, e murais coloridos que circundam o espaço outrora vazio. Com o brilho nos olhos de quem cuida, o Theo fala do prazer de poder desfrutar em comum de um lugar como este, no bairro da cidade onde vive.

«(…) Porque a convivência, esta capacidade de sentir pessoas que apesar de não pensarem como tu ou de serem distintas de ti, temos sempre este ponto de encontro que é a horta, com a qual nos identificamos todas – este amor à terra, este amor à natureza – e neste espaço coincidimos. Há gente de muitas partes, com outras ideologias, sobretudo isso, de muitos países, é uma colmeia de gente de muitas partes. Mas temos esta capacidade: quando estamos na horta somos todos da horta

Aproximamo-nos de uma cúpula geodésica virada para o pôr-do-sol, à qual chamam “o útero”.

O Útero.
O Útero.

A construção marca a entrada na zona selvagem: um espaço da horta reservado às plantas espontâneas, muitas vezes exóticas, onde se cultivam os princípios da inclusão, da diversidade e da integração.

Numa parábola sobre a emigração e a elitização das espécies, o Theo termina a visita com a história dos papagaios verdes desenhados ali no mural. Vêm da América do Sul e multiplicam-se como sementes pelos espaços verdes da cidade.

Mais Pimento Menos Cimento | O SOM É A ENXADA #59 (06SET2017). Ouve:

Primaverno

(Primaverno, Verão, no Outono hiberno)


Na primeira lua do ano o esplendor das magnólias nuas já antecipava a boa-nova que sempre lhes coube anunciar: vivem à frente do tempo, vêm para mostrar que há esperança no Inverno acabar. Já não importa saber se-quando-e-como é que ele chegou a começar.

“Primaverno”. O jasmim emancipou-se em flores temporãs ainda o Sol não alumiava os botões vermelhos que seduzem o muro. Uma subtil ameaça exala no ar, a fragância fascina os instintos dos gatos que passam em total liberdade.

No pico do Inverno, a pujança do maracujá permitiu-lhe edificar a sua própria pérgola suspensa no vazio – carregada de fruto da paixão, desprolongando a hibernação – desobrigando até as orquídeas a reprimirem a floração.

Pouco a pouco as hortas vão revelando uma língua secreta. A gramática compõe-se com sementes indecifráveis que circulam nos bolsos dos traficantes frugais. Trazem pés de aromáticas embrulhados em pacotes de papel do pasquim do momento. Jogam à dialéctica da enxertia de hastas de alecrim, discorrem sobre rebentos lexicais de erva-príncipe. Inteiras edições de jornais são fechadas com as unhas cheias de terra.

O estio passa no tempo de uma velha comer uma maçã, com rituais de rega diária e turnos de quem cuida de matar a sede ao solo. A nudez dos canteiros veste-se de alimento. Mulheres dançam e regam sem roupa, riem das notícias de alfaces que diz-se que singraram no espaço (que o desaparecimento das mais tenrinhas é fruto de um vórtice estratosférico, contrariando os rumores de intrincados labirintos escavados por doninhas-anãs). Os logradouros lembram vagamente a promessa fértil da periferia e da transgressão.

No Verão à vinha chega o pintor,

abrem-se janelas nos dentes do sorriso de quem colhe tomates.

No Outono o Sol recua em palmos de canteiro a cada dia que passa,

eu mondo, tu lavras. Ele revolve, tu lenhas. Eu rego, eu prego, ele canta.

Nós damos as mãos por cima do fogo onde os braços convergem. Assamos colheitas cansadas só pelo prazer de nos ligarmos à terra. Trocamos figuras do ano em que as hortas se multiplicaram, para regressarmos depois então ao quotidiano do pequeno quintal – eterno ponto de observação do generoso escândalo da reprodução.

Onde deixamos o fruto cair só para contemplar o que dele pode desabrochar

se catamos daninhas como quem cata piolhos à cria de quem se cuida…

se nutrimos as entranhas da terra e as estações assim se sucedem…

se em nós brota a ideia de um deslumbramento visceral…

viver em pleno a abundância frugal.

Texto produzido para o programa O SOM É A ENXADA da Rádio Manobras.

“El cambio ya viene”*: notas de uma breve passagem pelo estio catalão

«Cabe a cada um de nós apreciar em que medida – por menor que seja – podemos contribuir para a criação de máquinas revolucionárias capazes de acelerar a cristalização de um modo de organização social menos absurdo que o atual.»
Félix Guattari, Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo

«Optara conscientemente por este destino tranquilo em que a moleza nativa de todo um povo mostrava o seu engenho.»
Albert Cossery, Mandriões no Vale Fértil

Autonomia. A ideia repete-se alto e bom som, ecoa nas mais profundas masías catalãs, pulsa insolente no coração da grande cidade. Rizomas de pessoas auto-organizadas em torno de um comum transversal: soberania integral, autonomia da banca e do Estado.

Estão a trilhar os desígnios de um tempo que vem acoplando ideias de autonomia e liberdade. Usam como ferramentas a auto-gestão, a auto-organização, a democracia directa, medidas de intercâmbio, e muito poucos euros.

Formam uma rede de redes contra-poder cujas raízes já se espalham bem além da Catalunha. Em todo o território legal espanhol, existem pelo menos 200 eco-redes de economia solidária. Juntas entrelaçam milhares de pessoas numa vontade comum: ser engrenagem de um sistema de resiliência pós-capitalista. Cada grupo local – eco-rede – tem a missão de impulsionar uma economia alternativa baseada em critérios de reciprocidade, proximidade, solidariedade, confiança, cooperação, bem comum e ecologia. Só na Catalunha, as “ecoxarxes” (na língua catalã) são cerca de 40.

Somos miles de islas, hagamos archipielagos
O mote lançado pela Casa Invisível, em Málaga, concretiza também aqui a sua utopia. Fartas de não terem como subsistir, do roubo generalizado, do desgaste em lidar com as estruturas da autoridade, do isolamento, da fragmentação, do exílio e da deserção, em suma, da violência de existir em tempos de crise sistémica na periferia do Sul da Europa, resgatam a dignidade colectiva passando de indignadas a nós activos na superação da dependência do sistema capitalista. Dizem-no sem parcimónia. Mesmo que os pés ainda calquem dois mundos, distinguem muito bem a direcção para onde se projectam.

Montserrat

Montserrat. Lá, como cá, a viagem para o interior percorre complexos industriais decadentes e fábricas em ruínas, abandono.

Em Julho de 2014 auto-organizou-se o “V Encontro de Eco-redes e Moedas Livres” na Catalunha, com o propósito de fortalecer relações entre pessoas que participam em redes de economia solidária.

Cerca de 60 membros de mais de uma dezena de eco-redes locais (cada uma com a sua moeda), vieram de diferentes comunidades, aldeias, vilas e cidades da Península Ibérica (quase todas da Catalunha), para participar em dois dias de dinâmicas que pretendiam fomentar a criação de acordos entre diferentes grupos locais.

Mapa de eco-redes presentes no quinto “encontro de eco-redes e moedas livres”.

Mapa de eco-redes presentes no quinto “encontro de eco-redes e moedas livres”.

Quem abriu as portas ao encontro foi o eco-projecto Selmellà, um restaurante fora-de-estrada reactivado nas profundezas da cordilheira pré-litoral catalã. O eco-projecto traz nova vida à Masía Can Figueres, repovoada por quatro italianos que mantêm e exploram o espaço orientado-se por princípios de permacultura e prácticas de alimentação saudável. A cozinha abre só aos fins de semana oferecendo um menú ecológico, sustentável, de qualidade, a “degustar de forma relaxada”, com uma bela vista para cerejais sulinos rematados por um pequeno bosque e imponentes rochedos.

Terraço do eco-projecto Selmellá

Terraço do eco-projecto Selmellá, onde na primeira noite houve direito a pasta com pesto feito de plantas selvagens que crescem ali no monte.

O forno de adobe a lenha é um ex-libris do eco-projecto Selmellá.

O forno de adobe a lenha é um ex-libris do eco-projecto Selmellá.

Faz-tu-mesmo em transição:
DIY → DYT – Do-Yourself-Together

Desde o mapeamento colectivo de recursos e necessidades comuns, à realização de assembleias pragmáticas, conversas e oficinas, passando pelo mercadinho de trocas e uma noite de celebração com palco térreo improvisado aos ritmos da resistência catalã*, o programa do encontro foi feito por todos e todas e esteve desde cedo aberto a propostas de actividades (online em Titanpad.com/Trobada-Ecoxarxes-Juliol-2014).

A moeda social fez-se virtualmente presente. A inscrição era necessária, para organizar transportes e “fazer uma boa previsão das comidas e espaços comuns”. Cada participante deveria contribuir com 20 unidades monetárias, em qualquer moeda, ou com bens no mesmo valor que pudessem servir o próprio encontro (como alimentos para as refeições), ou ainda com participação nos “grupos eco-activos”, dedicados essencialmente à cozinha, às limpezas e à “acogida”.

Acogida: espaço de acolhimento e recepção para quem chega e de coordenação das actividades (uma constante nos espaços autónomos que visitei).

Acogida: espaço de acolhimento e recepção para quem chega e de coordenação das actividades (uma constante nos espaços autónomos que visitei).

Acogida

Acogida

Manhã radiosa de sábado para a cozinheira e directora da “Associació Menjadors Ecològics”, Nani Moré, abrir o apetite de todos os presentes com a partilha da experiência das cantinas escolares ecológicas e de proximidade na Catalunha.

O projecto transversal de formação e acompanhamento integral que Nani dirige, “Menjadors Ecològics”, serve cantinas escolares da Catalunha com refeições saudáveis e ecológicas e integra-as num projecto educativo alargado às crianças, pais e mães, educadores e produtores.

Nani Moré apresenta as cantinas ecológicas no encontro de eco-redes.

Nani Moré apresenta as cantinas ecológicas no encontro de eco-redes.

O projecto estrutura-se em torno de três eixos: produção de alimentos ecológicos; alimentação e menús escolares; educação alimentar e ambiental. Um relatório em .pdf (15 páginas) está disponível no site do projecto, e inclui pré-visualização de um mapa das cantinas que já adoptam esta práctica e filosofia (a ser lançado em Setembro de 2014).

No documentário “El Plat o la Vida” (“O prato ou a vida”, ou “a diferença entre encher barrigas e alimentar pessoas”), a própria Nani Moré expõe a situação actual do sector e aponta medidas concretas para a sua reinvenção.

A emancipação tecnológica era “cabeça de cartaz” do encontro, com a apresentação do IntegralCES, ou “Integral Community Exchange System” (Sistema Integral de Trocas Comunitárias), uma plataforma open source desenvolvida na Catalunha para a gestão de comunidades de moedas sociais.

Esteve Badia, o cérebro por trás do desenvolvimento, veio ao encontro levantar o véu à primeira versão deste sistema informático de intercâmbio que permite coordenar a rede de eco-redes, com todas as moedas que lhe estão associadas.

Esteve Badia, o cérebro por trás do desenvolvimento, veio ao encontro levantar o véu à primeira versão deste sistema informático de intercâmbio que permite coordenar a rede de eco-redes, com todas as moedas que lhe estão associadas.

O IntegralCES é um módulo de software livre, programado em Drupal, que constrói sobre a experiência de utilização do original CES (Community Exchange System, criado e mantido na África do Sul) ao longo dos últimos anos pela maioria das eco-redes espanholas.

A ser adoptada a partir de Setembro por vários grupos da Catalunha, a nova ferramenta de gestão de comunidades de troca disponibiliza uma interface melhorada, com funcionalidades à medida da realidade local, como a possibilidade de trocas “multi-recíprocas” (intercâmbio), e o envio automático de alertas por email sobre procuras e ofertas. Acima de tudo, e partindo mais uma vez da ideia de autonomia, o IntegralCES traz a liberdade de se poder instalar a plataforma em servidores próprios e alterá-la a bel-prazer (características que o CES original não tinha).

O compromisso com a transição para a autonomia integral é transversal. Isso implica que há diálogo, tolerância e entendimento construtivos entre o produtor de tomates, a cozinheira, o professor, a jornalista, o documentarista e a profeta dos microorganismos efectivos, todos os nós activos, incluindo o Esteve, engenheiro informático, que embora ainda esteja dentro do sistema capitalista (e, segundo o próprio, não seja “radical da moeda social”), guardou um tempo para fazer a sua parte na demanda da autonomia integral, no que toca a soberania digital e tecnológica, pegando na ferramenta com as próprias mãos e moldando-a à “máquina de guerra” que é a sua comunidade alargada.

A rede é feita por nós que disponibilizam bens, serviços e conhecimentos para a construção de um sistema de relações económicas que subsista à margem do capitalismo.

Cooperativa Integral Catalã é a entidade legal que liga várias destas eco-redes, reunindo já cerca de 2.000 associados. Diz-se integral porque pretende cobrir “tots els àmbits de la vida”, da educação à saúde e alimentação, um tecto para viver, trabalho, lazer, almejando “reconstruir a sociedade a partir da base, de forma integral, recuperar as relações humanas afectivas, de proximidade e baseadas na confiança”.

Rompendo com o síndrome das capelinhas – “cada pessoa uma empresa”, “cada projecto uma associação”, “cada sector uma cooperativa” – , a CIC é usada como ferramenta colectiva por nós e eco-redes que se associam para partilhar recursos (como um único NIF) e cobrir necessidades reais e básicas de outras pessoas na rede, minimizando a necessidade de se usar euros. A rede de redes pretende impulsionar um mundo em que seja possível “recuperar a dimensão ética e humana das actividades económicas, superando o individualismo e a competitividade capitalista”. Fazer-em-conjunto mecanismos de suporte que possibilitam o desenvolvimento de novas competências e habilidades que vão para além das puramente profissionais.

“Vivemos e morreremos como sóis e transformamo-nos num pó de ideias que dá forma aos sonhos.”

“Vivemos e morreremos como sóis e transformamo-nos num pó de ideias que dá forma aos sonhos.”

Voltamos ao coração da grande cidade. Bem ao lado da Sagrada Família, as instalações impecáveis de uma clínica médica insolvente transformada em “espaço aberto à revolução integral”. Três andares e terraço de “Aurea Social”, uma espécie de sede da CIC em Barcelona que fomenta “a criação e o desenvolvimento de ferramentas e recursos que facilitam a autonomia, o empoderamento(tanto a nível pessoal como colectivo) e a auto-gestão local”.

Vídeo da campanha de colectivização da Aurea Social, FEM-LO COMU (“let’s make it common!”). A iniciativa impediu que o banco ficasse com o edifício e garantiu o desenvolvimento do projecto no centro de Barcelona.

Consultórios que são salas de servidores, gabinetes de medicinas alternativas, mercearia, uma cozinha comunitária, terraço com horta produtiva e canteiros de plantas medicinais, vestiários, três andares de salinhas para crianças, danças, encontros e espaços de trabalho, biblioteca, sala de exposição.

Não falta a dita “acogida”, o “espaço de recepção e coordenação de actividades em espaços de aprendizagem colectiva”. O ponto de entrada e de convergência de informação, a cara para o mundo logo desde a montra virada para o passeio largo de grande circulação pedonal.

Aurea Social, Barcelona

Aurea Social, Barcelona

A espera pela abertura vespertina do espaço, às 16h, foi preenchida com uma dose de informativos sobre a revolução integral. Um sofá no exterior cola-se à montra no passeio; ela é face do poder de comunicação e alcance dos movimentos sociais catalães. Cartazes, flyers, convocatórias, notícias e organigramas. Pessoas param na passagem para ler sobre as últimas assembleias de bairro na cidade, tiram contactos da rede de estudos pela autonomia ou do projecto educativo LaMainada.org, marcam na agenda o próximo encontro das oficinas de transportes e de desobediência económica.

Ao lado do cartaz do canal de televisão dos movimentos sociais, La Tele (@okupenlesones), duas notícias em destaque sobre Enric Durán, publicadas no The Guardian e The Washington Post: o “Robin Hood” catalão que sacou quase 500 mil euros em dezenas de créditos à banca sem intenção de vir a repô-los, para distribui-los pelos movimentos sociais.

“Haverá melhor do que roubar os que nos roubam e repartir o dinheiro entre os grupos que o denunciam e constroem alternativas?”, explica Duran sobre a “acção individual de insubmissão à banca que [realizou] premeditadamente [em 2008] para denunciar o sistema bancário e para destinar o dinheiro a iniciativas que alertem sobre a crise sistémica que estamos a começar a viver, e que tratem de construir uma alternativa de sociedade.”

Da subversão à criação suprema, já levam bons anos de avanço na construção das bases e atingem uma maturidade rizomática “com força suficiente para sacudir e desenraizar o verbo ser”** – porque se superam no compromisso com a transformação da sociedade a partir da base. São representação do rizoma como aliança, mil planaltos de resiliência em transição para a autonomia integral. E nós, estamos à espera de quê?

«Enquanto continuarmos prisioneiros de uma concepção das relações sociais herdada do século XIX, (…) ficaremos fora da realidade, continuaremos a dar voltas nos nossos guetos, ficaremos indefinidamente na defensiva, sem conseguir apreciar o alcance de novas formas de resistência que surgem nos mais diversos campos. Trata-se portanto, de primeiramente medir em que grau estamos contaminados pelos artifícios do CMI [Capitalismo Mundial Integrado]. O primeiro destes artifícios é o sentimento de impotência que conduz a uma espécie de ‘abandonismo’ às suas ‘fatalidades’. (…) Cabe a cada um de nós apreciar em que medida – por menor que seja – podemos contribuir para a criação de máquinas revolucionárias capazes de acelerar a cristalização de um modo de organização social menos absurdo que o atual.»
Félix Guattari, Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo

* Do título, “El cambio ya viene y decido / o decido y el cambio ya viene” , obrigatório ouvir todas as músicas de Sílvia Tomás, a mais doce voz da resistência catalã. (download gratuito em silviatomas.bandcamp.com)

** Gilles Deleuze e Felix Guattari, Mil Planaltos – Capitalismo e Esquizofrenia